quinta-feira, 24 de maio de 2007

Pernambuco como sempre rendendo no rock nacional

Os pernambucanos do Mombojó em foto de divulgação .


O mais próximo que uma banda pode chegar de Los Hermanos é Mombojó. Esta banda pernambucana despretenciosa e simples de curtir foi uma das grandes apostas nestes últimos anos. No quesito "surpresa" a banda formada por Felipe S (vocal e responsável por rande parte das letras da banda), Marcelo Campello (violão, cavaquinho e escaleta), Marcelo Machado (guitarra), Rafael (flauta), Samuel (baixo), Vicente Machado (bateria) e Chiquinho (teclado e sampler) acaba deixando na vontade.

O primeiro disco da banda entitulado Nadadenovo apresenta uma atmosfera bossa-nova moderna em faixas como "Deixe-se Acreditar" e "Nem Parece" dando uma voltinha no rock mais pesado em "A Missa". Nadadenovo foi lançado no ano de 2004 através da revista Outracoisa (cujo dono é Lobão) em uma tiragem de 20 mil cópias. Pouco depois disponibilizou ambos os discos para download no siteoficial. Há quem compare a sonoridade deste album aos fantásticos Stereolab, mas aí já é um pouco exagerado. Como bons brasileiros que são, não deixam a peteca da brasilidade cair nunca. Na 7ª faixa nota-se a enorme influência de Jorge Ben no som dos caras ("O Céu, o Sol e o Mar").

Já o segundo álbum Homem-Espuma se diferencia um pouco do primeiro pro ter sido gravado em um estúdio maior fora de Recife (em São Paulo). Quanto a sonoridade houve uma grande mudança na calmaria em relação ao primeiro disco, dessa vez Mombojó abusa um pouco mais do rock, sem deixar de lado os tecladinhos estilosos que dão um ar retrô à banda. Grande destaque para a música titulo do cd, "Realismo Convincente" e a funk (?) "Pára-Quedas".

Aqui uma entrevista cedida pelos caras ao site O Dilúvio após o lançamento de Homem-Espuma:

E o Homem Espuma?

Samuel: Foi uma experiência nova, porque o Nadadenovo a gente gravou tudo lá no Recife, com nossos amigos, e o Homem Espuma não, já foi em São Paulo, num estúdio grande, com outras várias possibilidades. A gente aproveitou bem mais, com tempo tranqüilo pra fazer as coisas e com uma infra um pouco melhor, então rolou bem melhor por causa disso.

Marcelo Machado: Uma coisa no segundo que a gente não teve no primeiro. No primeiro disco a gente simulava muitos sons que a gente gostava, tipo um som de um Rhodes, um piano elétrico, sons variados. E nesse segundo disco a gente teve acesso aos equipamentos originais. A sonoridade no disco é cem por cento melhor quando você grava com os originais. Claro que em show você não pode levar tudo.

Vocês tiveram liberdade de tempo pra testar sons legais?

Marcelo Machado: A gente não teve tanto tempo pra testar tudo, mas pra isso serviu muito a produção do disco, feita por Daniel Ganjaman e Lúcio Maia, dois caras bem experientes nessa história de equipamentos e das possibilidades do estúdio. E isso ajudou muito pra gente, já que não tivemos tanto tempo pra explorar. A gente ficou deslumbrado com um monte de coisa e não sabia como mexer e eles tinham um direcionamento bem direto pra fazer o que a gente queria.

Marcelo Campello: Foi muito bom pra experimentação em teclado, porque eles tinham uma coleção de teclados enorme. Eles tinha diversas guitarras maravilhosas, amplificadores, valvulados antigos, baixo também, uns amplificadores enormes. Principalmente guitarra, teclado e baixo foi muito bom em termos de equipamentos. O estúdio da Trama em Pinheiros que eles tem lá é enorme pra gravar orquestra. E a gente não teve tempo pra explorar as possibilidades desse estúdio. A gente captou tudo close, por questão do prazo.

Marcelo Machado: A captação do estúdio é muito boa, tipo se quisesse gravar uma orquestra, como ele disse...

Marcelo Campello: ...ou se tivesse tempo de experimentar uma captação de uma bateria lá de longe...

Samuel: ...isso vem a longo prazo...

Marcelo Machado: ...até foi usado em várias músicas...

Marcelo Campello: ...dava pra fazer muito mais, mas tranqüilo...

Marcelo Machado: ...é preciso trabalhar com objetividade, e ninguém tinha de sobra pra fazer as coisas, e nesse caso a gente conseguiu fazer pelo menos bastante coisa, porque foi bastante apertado. Duas músicas a gente mixou em outro estúdio pra fazer cem por cento como a gente queria, pra não atropelar.

Como foi essa transição musical do primeiro pro segundo disco? O que vocês tentaram fazer de diferente?

O Rafa: Está mais a cara da banda, é como se as misturinhas de cada influência estivessem mais diluídas e mais sutis. Mais entrelaçada mesmo, o ponto da costura está mais bem feito. Agora você não está mais vendo, tipo aqui tinha uma batida xis, aqui tem isso e aqui tem isso.

Marcelo Campello: Acho que as músicas tem mais cara de canção. Antes elas tinham muito pequenos trechos harmônicos que iam mudando ao longo da música.

Foi falado no papel acentuado do teclado. Alguma influência da jovem guarda?

Marcelo Campello: O Harmond, que é um teclado muito usado na jovem guarda, é um teclado que o Chiquinho gosta de usar, tem influências nos timbres.

E o samba, como é essa influência na música de vocês?

O Rafa: Essa tendência é se distanciar um pouco, na verdade nem é todo mundo que gosta de samba, acho que todo mundo gosta um pouquinho de samba. Como é que é, tu gosta, não sei? Eu posso falar por mim, eu gosto muito de samba...

Marcelo Campello: ...mas não gosta de Cartola, ta ligado? Acho que rolou uma super chupação do samba...

O Rafa: ...gastou muito essa coisa de samba-rock, e hoje em dia a gente quer se afastar desse estilo de samba-rock.

Marcelo Campello: ... mas a nossa referência com samba no primeiro disco vinha muito mais da bossa nova do que de samba propriamente dito. Pela primeira vez a banda está sendo comparada com ela mesma. Muita gente que ouviu o segundo disco parece que querem ouvir novamente o primeiro, e depois começa a assimilar que o segundo também é Mombojó e que há uma evolução natural.

Felipe S.: O bom é que desperta essa curiosidade, quem só ouviu o segundo vai ver como que era o primeiro, então consegue ver como é essa diferença nas composições. É uma coisa bem particular da banda.

Marcelo Campello: A forma de composição da galera também foi mudando. Antigamente um chegava com uma base inteira e outro botava uma letra. Desta vez mais pessoas foram tocando junto e desenvolvendo bases junto durante um ensaio, repetindo várias vezes até chegar uma forma. Uma música que eu acho bem emblemática dentro do processo criativo é “Tempo de Carne e Osso”. Marcelo Machado tinha uma base de quatro acordes, e ele tocava as vezes nos ensaios, e aí gente começou a tocar todo mundo, encaixar uma coisinha nessa base, eu fiz uma melodia no cavaquinho. Aí fechou aquele formato, Felipe botou uma letra. Até a letra e a melodia a gente fez meio que junto, saiu uma mistura de cavaquinho com letra. É muito assim que acontece.

Marcelo Machado: Nossa coerência musical como banda vai melhorando. Nós somos sete e são onze instrumentos. Então cada coisa tem que saber onde entrar e cada vez mais vamos amadurecendo isso.

O Rafa: Acontece bem assim, acho que vou botar peça aqui, aí entra o solo de guitarra, aí a música está de um jeito, então vamos botar uma coisa aqui.

Marcelo Campello: Muitas vezes a gente tem surpresas boas pegando uma coisa do nada e jogando pra ver como fica, aleatoriamente, e fica bom.

O primeiro CD do Mombojó teve duas formas mais eficaz de distribuição: encartada numa revista (Outracoisa) pra ser vendido em bancas por um preço justo e disponibilizado no site da banda em mp3 para download gratuito. Que vantagens vocês notam nesses dois formatos de divulgar música?

Marcelo Campello: Principalmente em internet, que tem se mostrado a estratégia ideal para bandas independentes divulgar o trabalho, pois você não tem limite de prensagem. Uma vez colocando a música na internet ela pode ser reproduzida infinitamente. O que a gente fez foi liberar as músicas pra esse download caseiro, que é uma forma que a lei hoje em dia trata a pirataria, que é a comercialização de cópias ilegais, e esse download caseiro da mesma forma. Quando na verdade é totalmente diferente. Essas leis estão sendo discutidas, em muitos países isso está mudando em algumas áreas, em informática. Desde a experiência da Xérox, nunca mais a população pode voltar atrás com essa coisa da cópia livre. O caminho da música é seguir o exemplo da literatura e da Xérox.

Como a banda tomou conhecimento do Creative Commons?

Marcelo Campello: Tem um grupo lá no Recife que se chama Re:Combo que é super ativista nessa área. A gente...

Marcelo Machado: ... fizemos a capa do CD com um dos membros do grupo e ele nos deu a idéia. E através dele começamos a conhecer o que era o Creative Commons.

Samuel: É bom falar que não é do Recife só a banda. O Re:Combo tem conexão em São Paulo, na Alemanha. Os caras usam um programa que tu pode fazer música, grava uma base, manda pra um doido que é dono de uma banda na Alemanha, manda pra não sei quem, ou seja, é uma banda comunitária mundial, do caralho.

Marcelo Campello: Nessa época logo antes de lançar o primeiro disco a gente tava pensando nessas coisas. Eu tava numa viagem pessoal no meu prédio fazendo uma TV Prédio, que era um canal comunitário de TV e que funcionava dentro do prédio. Aí eu estava me questionando muito essas questões, tipo alugar uma fita e reproduzir para todos os andares. E isso era uma coisa que mexia com direito autoral. Foi onde despertou essas questões de direito autoral. E numa festa conversando com Mabuse, eu expus essas questões pra ele, que me falou: “você já ouviu falar em Copyleft?”. Eu disse não e começamos a conversar. Tudo o que ele falava tinha a ver com que eu acreditava. Esse conceito entrou na banda também.

É possível quantificar a proporção entre o investido e o retorno posterior?

Marcelo Machado: Venda de CDs a gente não tem como dizer se melhorou. A gente crê que com as músicas liberadas na internet as pessoas compraram mais CDs. Nos shows todo mundo dizia “eu tenho as músicas no computador, mas eu tenho o CD também”. E a gente chegou a tocar em alguns lugares porque os contratantes desses lugares ouviram a gente pela internet. Então se o cara de Florianópolis não tivesse ouvido a gente na internet, não teríamos ido tocar em Florianópolis na nossa primeira turnê. E lá vendemos alguns discos, e isso vale pra qualquer outro lugar.

Marcelo Campello: Parece natural que se aponte pro lado do CD em si ir sumindo e virar a coisa da música virtual. Ou a gente lida com essa realidade nova e tenta descobrir novos caminhos pra isso, ou vai fazer que nem as grandes gravadoras que estão aí falindo.

Então não tem escapatória, tem que aceitar a nova realidade...

Marcelo Campello: ... e tentar criar a nova realidade, as soluções não estão aí prontas, a gente está participando do desenvolvimento.

A questão da venda de CDs ficaria em segundo plano?

Marcelo Machado: Acaba sendo uma coisa empírica. A gente colocando as músicas na internet ajudou a aumentar as pessoas que vão aos shows, as pessoas que cantam as músicas. E quem vai aos shows e gosta, compra o CD. E a gente vendo o CD nos shows mais barato do que está nas lojas. Aí uma coisa acaba trazendo outra, e isso vai aumentando, pois na internet se propaga muito fácil. É uma coisa que tem um tempo bem diferente do que pra uma banda de sucesso, tipo uma banda que aparece do nada e vende milhões. Hoje em dia a coisa é diferente, as bandas que vão se firmando e se mantendo é ao longo do tempo que vão crescendo seu público. Tipo Nação Zumbi é uma banda que está há mais de dez anos aí e já plantaram muita semente.

Como vai ser a distribuição do novo CD que desta vez não estará em bancas de revista?

Marcelo Campello: Esse lance da revista foi uma coisa...

Marcelo Machado: ... foi na verdade uma solução pra gente, que só tinha grana pra prensar duas mil cópias pelo que recebemos da Lei de Incentivo a Cultura da Prefeitura de Recife. E duas mil cópias eram muito pouco, seria o número de cópias que a gente poderia dar pra pessoas pra fazer o contato, e pra vender nada. Aí veio o Lobão com essa idéia. Ele prensou 20 mil cópias pelo país todo. Pra gente foi bom pela quantidade de discos que a gente passou a ter depois.

Pra encerrar, gostaria de saber se alguém aqui torce pro Náutico?

Vicente Machado: Eu torço sim.

Porra man, desculpa aí pelo Grêmio ano passado. Hehehe.

(Créditos ao site O Dilúvio)



Dentre tanta porcaria no rock nacional, Mombojó se destaca e traz boas surpresas. Vale muito a pena! Bom para os órfãos dos Los Hermanos (desculpe pela comparação insistente, mas não tem jeito) que acabam de ganhar mais uma banda para ser sua queridinha.

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