quarta-feira, 27 de junho de 2007

Continua o melhor...

Por muitas vezes lembram do Caetano como aquele velhaco meia-boca que sempre está em temas de novela ou hits escrotos de rádio. Vamos esquecer "Sozinho" e a burrice de "Rocks" do disco lançado ainda este ano (2007). Coisa boa de verdade de toda a discografia de Caetano se encontra perdida nas décadas de 80, 70 e final de 60. Nem é preciso ir tão longe, o ano é 1979 e o disco é Cinema Transcendental de Caetano e a Outra Banda da Terra (banda esta que lhe acompanhou durante toda a turnê deste disco).

Do início ao fim o lp é excelente. Sabe aqueles que servem para qualquer momento e a toda hora? Sem problema algum, sem faixa avançada nem nada... pode confiar: ouça-o inteiro. Tudo começa com "Lua de São Jorge", no maior estilão feliz e regado de regionalidade baiana seguida da linda "Oração Ao Tempo", quase uma cantiga de ninar. A terceira faixa é "Beleza Pura", um dos maiores sucessos de Caetano. "Menino do Rio" que era hit na voz de Baby do Brasil transformou-se em hino por Caetano, sem comparação! Depois tem "Vampiro", "Elegia" (uma das melhores do disco), "Trilhos Urbanos" que remonta uma bela tarde e "Louco Por Você" que inicia uma parte mais raiz e menos mpb de Cinema Transcendental.

A capa retrata o clima do disco: pura paz.

Boa dica pra quem tem "ataques mpbísticos" como eu e nunca sabe por onde começar. Comece por esta obra, com certeza um dos maiores momentos na música popular brasileira, se não for o maior.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Duas resenhas de quem presenciou Chan ao vivo

Cat Power Brasil Tour

por Marcelo Silva Costa - São Paulo
por Patricia Faller - Curitiba Cat Power, ao vivo no Sesc Vila Mariana, São Paulo.
06/11/01
Poesia Rock And Roll
Por Marcelo Silva Costa


Poesia. Poesia ao som de piano de calda, uma velha guitarra e um amplificador Fender que teimava em querer que seus chiados cortassem o silêncio. Assim podemos resumir a apresentação que Chan Marshall, mais conhecida como Cat Power, fez no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, anteontem.

Mais de 600 pessoas lotavam o ambiente. As escadas de acesso pareciam cadeiras. E o silêncio imperava. Cat Power começou o show munida apenas de guitarra, microfone, uma bela iluminação e timidez, muita timidez. A timidez era tanta que a garota simplesmente uniu todas as canções do primeiro bloco, para que não houvessem aplausos.

Mas foi apenas parar com a guitarra para seguir ao piano que os aplausos vieram. Ela tentou, pelo menos por mais duas vezes fazer o público entender essa timidez, em vão. Assim, da metade do show em diante, Cat aceitou, com timidez, claro, as brincadeiras, e diminui a distância entre artista e público.

Cat Power errou várias canções, cantou algumas pela metade, brincou com a letra de outras. Quem esperava apuro técnico saiu decepcionado do show, assim como sairia decepcionado se tivesse visto o Nirvana errar "Smells Like Teen Spirit", no Hollywood Rock, anos atrás. A questão não é essa. Cat Power faz música em um mundo todo particular e quem quiser entender sua música precisa adentrar esse mundo. Só isso a permite tocar uma cover como "Satisfacion" dos Rolling Stones podando o famoso refrão.

O repertório garimpou 22 canções, sendo várias de seus cinco álbuns (os três últimos lançados no Brasil, via Trama) e sete inéditas, além de novas covers para canções de Robert Johnson, do Big Star e Bob Dylan.

O som tosco e os erros deram brilho a apresentação. É um mundinho todo particular esse de Cat Power. Um mundinho de música primária...

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Cat Power, ao vivo no "Era só o que faltava", Curitiba
07/11/01
Nem tanto poder, Chan Marshall
Por Patrícia Faller

O lugar onde foi o show de Cat Power em Curitiba, o "Era só o que faltava", faz jus ao nome (há algum tempo atrás era uma oficina mecânica - ainda não perdeu a "graxa"). A capacidade era para 200 pessoas; foram vendidos 150 ingressos. Teoricamente o show começaria às 21:30, mas na prática, pouco depois da meia-noite. Pouca gente "entocada" em uma garagem seria perfeito para a cantora, afinal, este não é um show de grande porte. Chan é miúda, tem a voz gravíssima (sem exageros) e sua timidez faz com que se esconda o tempo inteiro atrás dos cabelos e da guitarra. Ela exige absoluto silêncio durante a apresentação - esta, por sua vez, foi interrompida algumas vezes.

Qualquer barulho adicional era motivo para que Chan ameaçasse sair do palco. A performance surpreendeu a maioria dos indies curitibanos ali presentes, pois ela se prendeu mais aos covers do que aos próprios sucessos. Quem desejava algo barulhento, recebeu uma "harmonia" em troca (entre aspas, porque a moçoila errou várias letras e acordes - parecia nervosa). Eram constantes os gritos implorando "Nude As The News" e "American Flag" (faixas dos álbuns "What Would The Community think" e "Moon Pix", respectivamente). Destaques: "Troubled Water" (Michael Hurley), "Sea Of Love" (Phil Phillips & the Twilights), "Back Of Your Head", "You May Know Him", "In This Hole" e "Sophisticated lady". Um típico show nota 5.

Sugestão: para quem pensa que os únicos discos da Cat Power são os mencionados acima e o "The Covers Record", há dois anteriores: "Dear Sir" (1995) e "Myra Lee" (1996 - mesmo ano em que foi gravado "What Would The Community Think"), não foram lançados no Brasil. Apesar de terem qualidade inferior aos três últimos, ainda têm lá as suas qualidades.


SET LIST CAT POWER - São Paulo

GUITARRA

"Merewolf" (Michael Harley)
"The Party" música nova
"Baby Doll" música nova
"Come on my Kitchen" (Robert Johnson)
"You" música nova
"Fool" música nova
"Sofisticated Lady" (Duke Ellington)
"Kingsport Town" (tradicional) *Bob Dylan fez uma versão
"Everytime" música nova
"King Rides By" álbum "What Would The Community Think?"
"Sea of Love" (Baptiste e Khoury) - álbum "The Covers Record"
"Jump" Jessie May
"Nightime" Big Star
"Back of your head" álbum "Moon Pix"

PIANO

"In This Hole" (Chan Marshall) "The Covers Record"
"I Found a Reason" (Lou Reed) "The Covers Record"
"Wild is the Wind" (Tiomkine) "The Covers Record"
"Loving days a New York Town" música nova
"Funny Things" música nova

Fora da ordem:

"You may know him" (Chan Marshall) álbum "Moon Pix"
"Knocking on Heaven's Door" (Bob Dylan)
"Moonshiner" (tradicional) álbum "Moon Pix"

Sorria, Chan!

Atualmente Cat Power (ou Chan Marshall) é considerada diva pelos metidos a alternativos.


Resenhar a obra de Chan Marshall é um pouco dificil. É dona de momentos brilhantes e outros foscos e sem-graça beirando a chatice. Marshall é a mulher a frente do grupo Cat Power (diga-se de passagem, grupo de uma integrante somente). É instrumentista, compositora e cantora. Nada mau se não fosse tão intimista assim.

Sua história não é tão curiosa assim. Nasceu em Atlanta nos Estados Unidos no ano de 1972, largou os estudos aos 17 anos e foi a New York em busca de algo melhor. Em 94 abria shows para Liz Phair (outro ícone da múysica alternativa feminina) quando Steve Shelley (baterista do Sonic Youth) e Tim Foljahn do Two Dollar Guitars a convidaram para gravar dois discos, um pelo selo italiano Runt (Dear Sir do mesmo ano) e Smells Like Records (Myra Lee de 95). Apesar de haver um ano inteiro que separa seus lançamentos, ambos foram gravados no mesmo dia.

Em 1996, Cat Power lança What Would The Community Think? agora pelo grande selo Matador Records. Sem surpresa alguma e com poucos momentos cantarolantes ("Taking People" é o o ápice do disco), pouco chamou atenção da mídia em geral. Nele é tudo muito repetitivo, monótono e igual; essa fórmula jamais seria banida dos discos posteriores que, diga-se de passagem, todos eles possuem um pequeno resquício de What Would The Community Think?, porém sem exageros, maior empolgação e muito mais musicalidade. Muito 'lo-fi' irrita.

Dois anos se passaram e surge o grande Moon Pix em 1998. Desta vez Chan acerta em cheio a fórmula da tristeza junto a musicalidade e beleza. Deixou de lado a palidez e construiu lindas canções como "Cross Bone Style" (que tem aquele clipe famoso na MTV Brasil em que ela aparece de unhas pintadas de amarelo, com dançarinos em um cenário de fundo branco), "American Flag" (que abre brilhantemente o cd) e a balada "Metal Heart". Um dos melhores, se não for o melhor trabalho de Cat Power.

Em mais um intervalo de dois anos, surge com The Covers Record, como o próprio titulo deixa claro, um álbum de covers de músicas consagradas como "(I Can't Get No) Satisfaction" dos Rolling Stones e "Wild Is The Wind" de Nina Simone. Extremamente superestimado por fãs e simpatizantes da cantora, eu particularmente ponho The Covers Record no ranking dos piores de Cat Power. Dono de um clima arrastado e sem animação alguma, pode deixar este cd enpoeirando laaaaa no fundo da sua discoteca. Uma boa amostra dessa chatice toda foram os shows que Chan fez no Brasil para divulgação de The Covers Record, onde ela por pouco não conseguia cantar de tão bêbada que estava. Decepção para muitos, alegria de ver sua diva chapadona para outros (mesmo esquecendo letras, chamando palavrões gratuitamente e arrotando alopradamente) a turnê passou por São Paulo (contando com um pocket show na Loja Fnac), Rio de Janeiro, Porto Alegre (com abertura do grupo local Os The Darma Lovers) e Curitiba. Poucos veículos de comunicação brasileiros cubriram os shows, afinal ela faz questão em manter a pose undergorund, fazendo declarações neste estilo: “Detesto quando as pessoas aplaudem. Eu odeio quando tenho que parar a música, as pessoas aplaudem, então tenho que dizer ‘obrigada’ e começar de novo. O ato de aplaudir é estranho para mim, literalmente”. Para delírio dos admiradores, os ingressos dos shows em todas essas capitais iam de R$7,50 a R$20,00, afinal Chan veio sozinha ao país fazendo um show mais barato.

Somente no ano de 2003 lançou um álbum com faixas inéditas, recrutando gente de peso como Eddie Vedder e Dave Ghrol para participar de You Are Free. Este é por muitos considerado o trabalho mais rock de Chan, prova disso é o maior hit de sua carreira "He War" (6ª faixa do disco), que apresenta uma faceta um pouco diferente de Chan. O clipe desta faixa é tão bom e poderoso quanto a música. Excelente!

2006 é o ano de The Greatest ser lançado, até agora eleito pela crítica especializada o melhor álbum da carreira de Cat Power. Destaque para as excelentes "Love and Communication" e "Lived In Bars".

The Greatest é considerado o melohor trabalho de Cat Power!



Atualmente, cinco dos trabalhos lançados pela Matador (incluindo The Greatest) estão disponíveis no Brasil pela Trama. Vale bastante a pena conhecer o que tem de melhor na carreira da rainha da tristeza alternativa.