Humilhação, desespero e loucura provocados pela luxúria e sedução de uma bela vedete, este é o tema do clássico O Anjo Azul de 1930. O filme foi inspirado no livro homônimo escrito por Henrich Mann no início do século XX, segundo consta, uma das maiores publicações da literatura alemã de todos os tempos.
As obras (tanto o livro quanto o filme) contam a estória do professor de lingua inglesa da escola local, Prof. Immanuel Rath, que tem a idéia de ir a um inferninho chamado “Blaue Engel” (Anjo Azul) para pegar alunos seus no flagra durante a noitada. Mal ele sabia que o pesadelo de sua vida alí começava quando conheceu Lola Lola, uma vedete que de supetão o encantou. Se encanta pela vida boêmia ao lado de sua deusa, perde o emprego, o respeito que possuia por todos na comunidade até se transformar com o passar dos anos em um homem amargo e cego pela paixão e ódio que possui pela mulher que mais amou. É um conto do quanto perigoso o amor pode se tornar, o que ele faz com o respeito, dignidade e estabilidade.
O Anjo Azul permaneceu proibido por muitos anos em muitos países por conter não somente cenas fortes consideradas à época como as pernas rechonchudas porém belas de Dietrich a mostra, mas por tratar de um tema pesado e suspeito (ainda mais com o nazismo em plena ascensão), mesmo assim não impediu a projeção da bela Marlene Dietrich (no brilhante papel de Lola Lola) na época de seu lançamento. A fotografia do filme impressiona pela atmosfera escura e triste dos inferninhos a beira de cais e portos, sempre regados de muita cerveja e belas vedetes. O diretor Josef von Sternberg, chegou a ser indicado para o Oscar como melhor diretor por “Marrocos” de 1931 e em 32 por “Expresso de Shangai” (que também contam com Dietrich no elenco). Ainda houve outro clássico de Marlene nas mãos de Sternberg em 1932 com o lançamento de “A Vênus Loira”.
Esse diretor, nascido em 1894 em Vienna na Austria, passou sua infância dividido entre Nova York e Vienna. Dirigiu por volta de 30 filmes, escreveu mais de uma dezena além de atuar, produzir e editar outros vários até 22 de dezembro de 1969 quando faleceu vítima de um ataque cardíaco. Durante sua vida esteve ao lado de Dietrich – além dos já citados – em “Desonrada” (Dishonored), “A Imperatriz Vermelha” (The Scarlet Empress) e “The Devil Is A Woman” todos da década de 30. A biografia de Dietrich contém alguns fatos curiosos como o que Hitler a convidou para atuar em filmes a favor do nazismo, tendo ela recusado e se tornado cidadã estadunidense, Adolf a chamou de traidora. Outra briga com o nazismo alemão foi em 61 quando estrelou o filme “Julgamento em Nuremberg” que tratou do ódio nazista e do holocausto, tendo retornado a sua terra pátria em 62 por estar em turnê mundial como cantora (sim, ela se descobriu cantora quando, na segunda guerra mundial, era convidada a aliviar as dores dos soldados em shows oferecidos às tropas aliadas) e logo no aeroporto foi vaiada e, de novo, chamada de traidora. Já no fim de sua carreira, contracenou com David Bowie em “Apenas Um Gigolô” de 1978, para depois morrer sozinha em seu apartamento na capital francesa por causas naturais em 6 de maio do ano de 1992. Em toda sua vida foi indicada ao Oscar uma vez em 31 por “Marrocos” e ao Globo de Ouro por melhor atriz em drama em 58 por “Testemunha de Acusação”, além de possuir sua própria coleção no Deutsche Kinemathek - Museum für Film und Fernsehen (Cinemateca Alemã – Museu de filme e televisão).
O Anjo Azul é um clássico absoluto, não daqueles monótonos porém clássicos. Um filme emocionante, real para alguns mas acima de tudo um retrato forte e cruel do amor. Poucos conseguiram pintá-lo com tanta maestria.

